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Gavriel Buckley havia perdido a conta de quantas vezes havia desejado morrer. Não de forma dramåtica nem cinematogråfica e sem qualquer trilha sonora pesada ou um plot twist final grandioso. Sem pular de pontes ou engolir comprimidos ou bilhete vitimista. Estava mais para o tipo atropelamento acidental enquanto ele atravessava uma rua a qual ele não havia olhado para os dois lados antes de atravessar. Um fim desimportante e que ninguém comentaria por mais de dois dias. O tipo de morte que ele acreditava se encaixar quase que perfeitamente em alguém como ele.
Era quase meio patético. Quantas pessoas passavam por aqueles bancos de madeira gasta ao irem àquela mesma igreja onde ele estava naquela terça a tarde e enchiam aquele lugar com esperanças por cura e por uma melhora em uma vida que possivelmente era muito pior que a dele. Eles vinham geralmente pedindo por força para suportar a dor e ele estava ali, pedindo que a dor cessasse.
Ainda assim Buck estava ali pedindo â implorando â por um pouco de paz. Por uma eternidade sem o peso nos ombros e sem o peito formado como um cemitĂ©rio de sonhos doendo a cada batida de seu coração.
âUm diaâ as palavras de Anthony ainda ressoavam em seu cĂ©rebro como um sino vibrando dentro de uma torre oca a cada badalada, fazendo seus tijolos tremerem. âVocĂȘ vai ter um filho e ele vai ser ingrato igual a vocĂȘ. InĂștil igual a vocĂȘ. E aĂ vocĂȘ vai me entender, porque ele vai te abandonar igual vocĂȘ quer fazer comigo.â
Gavriel queria ter dito que nĂŁo, que nĂŁo queria e que nĂŁo iria abandonĂĄ-lo â apesar de tudo, Anthony era seu pai â, mas a lĂngua ĂĄspera como uma lixa fez travar todas as palavras entaladas ali. Gavriel carregava o nome dele em seu prĂłprio nome do meio. Ele cuidava do pai como podia, como conseguia. NĂŁo era justo que mesmo sendo um homem feito e nĂŁo mais aquele adolescente amedrontado ele ainda fosse um covarde.
âEstĂĄ tudo bem, Anthony. Eu nĂŁo vou embora.â ele dissera na noite anterior, ajudando o homem a se ajeitar na cama no pequeno trailer, ao passo que a mĂŁo no pescoço havia sido quase nada perto do que o pai jĂĄ havia feito com ele antes. Sem tanta força, mas sendo o suficiente para deixar marcar vermelhas na pele branca. Gavriel sentiu o polegar pressionando a seu pomo de AdĂŁo, um lembrete silencioso de a quem ele ainda pertencia. Sem danos graves, mas o suficiente para que ele se lembrasse de todas as vezes que chegou a desmaiar quando criança por conta daquele mesmo tipo de violĂȘncia.
âEu acho bom mesmo. Ou vai arder no Inferno.â
E, sentado naquele banco, observando a face de um homem que supostamente havia sido morto pelo prĂłprio pai, Gavriel ajeitou a gola da jaqueta sobre o pescoço pensando que Deus â se existisse mesmo algum â fosse um pai assim. Capaz de sacrificar o prĂłprio filho para salvar o mundo, mas depois deixar o resto da humanidade se virar sozinha, porque nĂŁo eram mais seu problema. Eu dei uma nova chance, agora se virem sozinhos e nĂŁo a joguem fora novamente.
Talvez o céu fosse só mais uma versão de um trailer em Willowgate. Maior, mas igualmente sufocante.
EntĂŁo ele reforçou as preces sĂł mais uma vez, sentindo os olhos inchados arderem, pedindo para que parasse de ouvir a voz do pai mesmo quando o homem estava calado. NĂŁo reclamaria se saĂsse daquela igreja naquela terça-feira e caĂsse em uma vala ou um caminhĂŁo de entregas talvez buzinasse tarde demais e ele acabasse realmente ardendo no inferno. O inferno parecia mais convidativo que aquele trailer em Willowgate.