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Cleopatra Singh era uma grande fã de tudo o que significava vida. Ela gostava de ação desde pequena, gostava de livros de aventuras e fantasias com elfos e fadas, heróis e princesas. Tudo o que significava que a vida valia a pena ser vivida.
Por isso naquela tarde ela havia decidido que iria voltar a dirigir. O vento cortante entrando pela janela do carro e bagunçando seus cabelos enquanto ela estava no controle de uma máquina muito maior que ela era o suficiente para encher seus pulmões com o oxigênio que também significava vida. Antes, havia vida ao redor dela inteira e ela queria isso de volta.
Então ela dirigiria novamente seu Jeep.
O temporal do início da tarde havia recém passado em Hawthorne, quando ela desceu as escadas para o pátio em frente o casarão. A chave em mãos fazia barulho nas correntes do grande chaveiro de pom pom cor de rosa de forma que parecia estranha, quase como se nunca tivesse feito aquilo antes.
Mesmo assim, não podia mais ser tão difícil assim. Era só uma máquina, só um amontoado mecânico encapado com uma lataria bonita e um pouco de fogo e um pouco de reações químicas e físicas e… só um carro.
Cleo adentrou no assento do motorista e se demorou a fechar a porta. O clima estava fresco, até meio frio em comparação ao clima típico texano, mas respirar já era um esforço a mais. Não muito, mas era.
Os movimentos pareciam calculados ao máximo. Era quase como um dos animais da fazenda. Não como McQueen ou Prada os quais Cleo só não havia demorado para conquistar, porque eles haviam nascido quando ela já estava ali, mas como os outros que ainda desconfiavam dela, mas que com paciência ela foi conquistando aos poucos. Talvez ela fosse um deles. Talvez o Estado da estrela solitária fosse perfeito para ela, porque era exatamente como ela se sentia em meio a trinta mil constelações.
A chave estava na ignição e ela tinha coragem para muita coisa, mas não para aquilo. Ela amava a vida e o barulho do ronco do motor ainda a lembrava o contrário disso. Ainda a lembrava de sangue e vidros quebrados e luzes azuis e vermelhas e medo. Ela tinha tanto medo. Talvez o Texas fosse o estado perfeito para ela e era por isso que pouco mais de três meses no futuro ela sairia correndo dali. Ela costumava fugir do que era perfeito para ela.
Após ensopar o colo da calça jeans com todas as lágrimas misturadas com rímel e com todas as coisas que ela não acreditava que um dia contaria a alguma alma viva, ela ergueu o olhar e em um sobressalto notou o pequeno bichinho um pouco longe.
A raposa cinzenta parecia encara-la – até julga-la – como se soubesse exatamente que ela não era forte o suficiente para nada e que vivia sendo a farsa que era, fingindo tão bem que até ela mesma chegava a acreditar as vezes. Em um ímpeto de fúria, uma fúria quase anciã que morava em seu peito talvez desde que ela havia nascido, Cleo saiu do carro indo na direção da raposa.
— O que é que foi? Sai! Sai daqui! Vá pra casa! Você pelo menos sabe onde a sua fica! — segurou as lágrimas em seguida com um único sentimento de vergonha. Estava gritando com um bicho, sacudindo os braços para que a raposinha fosse embora só porque ela queria ir.
Ela era patética com toda aquela auto piedade e sabia disso, mas não se importava nem um pouco. Se seu cérebro não fosse funcionar corretamente, pelo menos aquela máquina em frente a ela também não funcionaria mais.
Rapidamente, abriu o capô do carro e arrancou do motor a primeira coisa de borracha que viu, sujando as mãos de graxa, mas jogando a correia no chão e batendo novamente a tampa do capô para fechá-la. Quando voltou a olhar, a raposa já havia ido embora. Ótimo. Pelo menos era obediente.
E assim, Cleo adentrou novamente no casarão, pensando se comprava um novo carro, se fazia as unhas ou se retocava a maquiagem, porque geralmente era o que ela fazia quando alguma coisa parecia errada. Por isso, costumava fazer essas coisas o tempo todo.